História das Bandas de Música

Por Nestor Sant´Anna e Guiomar Murta

A história teria registros bem mais pobres se as grandes conquistas motivadas pelo expansionismo territorial não carregassem no seu rastro o consequente alargamento das fronteiras culturais.

Napoleão derramava medo por toda a Europa que, conquistada e intimidada, as sumia a conveniência dos mais nobres e ternos marcos de sua controvertida personalidade. A música era a pausa e o repouso das lutas para o imperador francês. Anexava as sua fileiras músicos que se agrupavam executando instrumentos leves e de fácil transporte, e foram os precursores das Bandas de Música.

D. João VI, diante da iminente invasão de Portugal, reconheceu a força das tropas napoleônicas e, a render-se ao inimigo, fugiu para a Colônia transferindo a Corte lusa para o Rio de Janeiro, no amanhecer do século XIX. Trouxe, na grande bagagem uma Banda de Música que chamava a atenção para a presença da realeza nos cerimoniais da monarquia e brindava os súditos coloniais com sons e ritmos da música metropolitana. O surgimento de grupos similares foi aos poucos se espalhando pelas províncias da nova sede do reino de Portugal.

Quase meio século antes, em Minas – na pequena e austera Mariana – Pedro Nolasco da Costa Athayde, músico de idade avançada, teria regido em 1774 uma corporação musical identificada pelos contadores da história das Gerais como a primeira Banda de Música de que se teve notícia no Brasil. Segundo os relatos, o músico, que não mereceu nada além de um tímido registro à disposição de pesquisadores, seria irmão ou parente muito próximo do Mestre Manoel da Costa Athayde, cuja obra se eternizou nos sinais da fé católica, em cada teto ou painel que adornava a escultura do Aleijadinho na riqueza da arte sacra do barroco mineiro.

O que acontece de melhor no mundo ressoa nas montanhas de Minas – acústica natural e ouvido apurado pela tradição. Ritmo próprio de ser e fazer a história que não se explica no espaço comum. O Compasso é único.

Minas é Musical. Pouco afeito ao meteorismo de sucessos fabricados em estúdios, seu povo segue a pauta incomum da simplicidade. Sem promover, sem retumbar, Minas reconta suas 438 Bandas de Música registradas e lavra o fato de ser dotada de um terço das Bandas do Brasil. As Bandas de Minas são uma banda do país. Carregam contos e feitos. As retretas são retratos. Nas partituras, clava-se a história. Interação de classes e idades buscando o objetivo comum. Na relação de troca, na horizontalidade e condição participativa que oferece, a Banda se torna exemplo de grupo. A valorização das metas exercita-se na interdependência. Seu objetivo transcende as teorias sociológica e musical. Nesta definição, as Bandas mineiras: Bandas que ficam passando. Passam, ficando. Tocam, retocando a vida no coreto da praça plantada em nós. O objetivo das Bandas de Minas é ação de “mineirar” sentimento e sentido, na hierarquia e na composição das relações que o mestre estimula ou redefine. O mestre é líder situacional. Nas ações internas e externas da Banda, pratica-se a participação social, degrau confidente da democracia. Representação democrática, a Banda afina seu tom com a vida e seu compasso com a comunidade. É ritmo, tempo, despertar e seguir. É alvorada que faz a manhã ser maior. Nas alvoradas, percebe-se a proposta de despertar o povo. No início da manhã, o toque alegre vai acordando as casas do trajeto e repercutindo além. A Banda vai passando e a gente fica acordada, pensando no dia, no motivo da alvorada, no santo padroeiro ou na data cívica, na motivação do dia: na pré-disposição. Isso não acontece com a surpresa breve dos foguetes ou com o som religioso do sino instalado no alto da torre. Aí, a diferença da alvorada. A Banda não se instala, percorre, passa, chama, pré-dispõe sem dispor ou estabelecer. É movimento favorece o passo do povo no compasso próprio. Sintonia com a vida. Disponibilidade para retocar a partitura da história. Buscar alternativas de acordes entre as claves e pausas do poder na estruturação do tempo.

Sendo corporação, a Banda incentiva, favorece, cria vocações musicais, recreação e prática do convívio social. Cumpre sua origem de sinal e bandeira. É marca local, signo da comunidade. Toca a alegria da praça no carnaval e compõe o tom fúnebre da procissão do enterro, na quaresma. Momentos do ano, eventos do povo. No palco do correto ou no desfile das ruas, os componentes da Banda vestem o mesmo uniforme, variam pouco o repertório e seguem o mesmo caminho que tem por marcos a praça e a igreja: o povo e a fé. Com do duplo vínculo que a alimenta – povo e fé – a Banda não cumpre, celebra. Em cada atividade tradicional, percorre o espaço do ano inteiro. Em seu calendário comum, janeiro se inicia com a Festa de São Sebastião e as Cavalhadas. Em fevereiro, o carnaval, o de rua. Para março e abril são reservados os preparativos e as celebrações da Semana Santa. No mês de maio, as Coroações de Nossa Senhora e a Festa do Divino. As Festas Juninas, especialmente as de Santo Antônio, destacam o mês de junho, sem esquecer as procissões de Corpus Christi. Em julho, no dia onze, a festa é para o Mestre da Banda. Já em agosto, celebra-se a Assunção de Nossa Senhora (da Lapa, do Pilar, da Boa Morte). Setembro festeja o Senhor Bom Jesus, Nossa Senhora de Nazaré, da Saúde e das Mercês e ainda Santa Efigênia. Congados e Reisados marcam o mês de outubro, dedicado a Nossa Senhora do Rosário. Em novembro, as atividades das Bandas estão voltadas para Santa Cecília, Padroeira dos Músicos. Dezembro fecha o ano e a programação das Bandas com a Festa de Nossa Senhora da Conceição. Não há destaque para as datas cívicas, assumidas, em sua maioria, pelas Bandas Militares. Na semana da Pátria, em muitas cidades, acontecem desfiles da comunidade e outras celebrações nas quais a Banda é solicitada e ocupa o seu papel: estar no meio do povo, com ele e para ele, junto.

A fé busca essências que se argumentam na história de cada dia, com misturas do ar, do chão e do céu. Só quem vive a realidade, nem sempre revelada nos fatos registrados, percebe a composição da vida que a Banda toca. Juntando credo e cores, idades e tipos, a Banda não distingue, é distinguida. Mescla-se com a fé católica, mas não se restringe à Igreja. Vive a autonomia, reforça a liberdade.

Se a Banda vem da palavra bandeira, configura-se como instituição que tem na palavra empenhada o seu reforço. Cresce e vai somando relevos na história da comunidade. Do interesse financeiro a Banda se libera. Nutre o orgulho coletivo e ensaia participação. Busca seguir e passar o som da democracia.

Na história de Minas, recolhem-se “causos” de gente, de cidades, de lugar. Costumes de antigamente, tradições, berço e raiz. Em cada família havia, nas terras do interior, o orgulho da vocação. Formar um padre e um médico era o ideal das mas abastadas, sem descuidar, porém, da cultura musical. Saber tocar um instrumento estudado e aprendido com o mestre, o pai ou o avô. Era preciso o encontro, aprender junto com os outros, conservando a diferença, procurando a afinação. No gosto do conjunto, a alegria do uniforme, do desfile pelas ruas, do coreto e da matriz. Ter um músico na Banda era o orgulho da família. Hoje, é concessão. Respeita-se apenas. A televisão tornou-se maestro do povo, mas o espaço da Banda continua guardado principalmente no interior de Minas e da sua gente.

Nas Bandas antigas, há poeira da história. Nas rachaduras dos instrumentos, a marca do tempo nos conta do século. Nas praças sem alma, o coreto nos cobra atenção. O coreto sem Banda não é presença, é pergunta. Vale preservar, há que se reativar, despensa-se construir. O coreto não é monumento, é instrumento da comunidade: palco de platéia espontânea que não precisa de ingressos para o espaço que é seu. Coreto não é palanque que se desfaz com os eventos, como se desfazem na praça os efeitos dos discursos que o povo prefere, às vezes, esquecer. No coreto, a Banda toca, em qualquer tempo, com registro garantido na partitura e no ouvido do povo, quem sabe na alma.

É bem mineiro o gosto do apelido. Cada Banda tem seu nome, mas leva alcunha do mestre ou fundador como reclame ou propaganda. Com o nome da Padroeira dos Músicos, Santa Cecília, encontram-se em Minas, bandas, corporações musicais, fanfarras, filarmônicas e euterpes. Varia-se a designação, sem sempre atenta ao rigor das características que o dicionário lhes cobra, mas o nome é próprio, sempre. Não é batismo, é consagração. Sacramento dos usos e costumes que a “Santa Sé” da cultura garante.

As mais centenárias e sedimentadas instituições, ainda que assimiladas e referendadas pelo status de bem de cultura, também estão a mercê da dilapidação patrimonial ou conceitual que os movimentos sociais exercem em nome da modernização dos costumes.

Há, no grupo da Banda, a força do encontro, da afinação e da sintonia. Retrato ingênuo da comunidade que vive suas trocas e relações, institucionais. A procura da harmonia aparece nas grandes e pequenas comunidades, parecendo, porém, configurar-se mais próxima no aconchego do interior. No coreto do interior, cada instituição é um instrumento que busca tocar afinado, atento à maestria da comunidade, seguindo a partitura da cidadania. A mídia eletrônica, que ao mesmo tempo reúne fascínio e agressividade, conta ainda com a globalização de sinais que o satélite permite e oferece dia e noite, um rol de estímulos e alternativas que são, na sua maior parte agressões à simplicidade e ao jeito de criar e festejar em cores e ritmo próprios. As expressões comunitárias necessitam de apoio para crescimento e continuidade. Assim acontece com a Banda que não está imune à ação do tempo e ao sinal dos tempos. Ainda que seja carinhosamente guardada, no interior, como uma jóia ou relíquia de família, a Banda necessita de apoio para continuar sendo e fazendo parte da história de Minas. Na composição da história, há instituições em acordes fortes: as que representam iniciativas produtivas sociais e culturais do Estado. Aquelas que buscam estimular, ajudar, participar e que se ampliam sem perder os fios do tecido social que veste Minas inteira.

No cenário das montanhas, o relevo das Instituições do Estado que precisa manter na linha o trem de Minas. No vagão dos valores, continua a fé de uma gente que sabe ter direito de contribuir e cobrar, esperando ver restaurados e guardados os seus bens: obras e ações, feitos e fatos, jeito e corporações. Na estação da memória, no trilho, a Banda espera.


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